Você provavelmente já ouviu falar sobre a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) em conversas com amigos, nas redes sociais ou em notícias sobre saúde. Talvez a ideia de ter uma proteção adicional contra o HIV lhe pareça interessante, mas, logo em seguida, surgem as dúvidas: “Será que eu realmente preciso disso?”, “Tomar um remédio todos os dias vai fazer mal ao meu fígado?”, “E os efeitos colaterais?”.
Essas hesitações são absolutamente normais. No meu consultório na Vila Madalena, recebo muitos pacientes que desejam viver sua sexualidade com mais liberdade, mas têm receio de medicalizar a rotina.
Neste artigo, vamos conversar francamente sobre para quem a PrEP é indicada, como funciona a segurança do medicamento a longo prazo e o conceito de prevenção combinada de ISTs. O objetivo é que você tenha informações técnicas de qualidade para decidir, junto ao seu médico, o melhor caminho para a sua saúde.
O que é a PrEP além do comprimido?
A PrEP consiste no uso diário (ou sob demanda, em casos específicos) de antirretrovirais por pessoas que não vivem com HIV, mas que estão expostas a riscos de infecção. A medicação cria uma barreira química no organismo: se o vírus entrar em contato com o seu corpo, ele não consegue se multiplicar nem se estabelecer.
No entanto, reduzir a PrEP a apenas “tomar um comprimido” é um erro. Na infectologia moderna, encaramos a PrEP como uma porta de entrada para o autocuidado.
Ao optar por essa estratégia, você entra em uma rotina de acompanhamento médico regular. Isso significa que, a cada três ou quatro meses, você fará um check-up de doenças sexualmente transmissíveis completo. É uma mudança de paradigma: deixamos de tratar a doença quando ela aparece e passamos a monitorar a saúde ativamente para que nada aconteça.
“A PrEP é indicada para o meu perfil?”
Antigamente, falava-se muito em “grupos de risco”, um termo que a medicina já abandonou por carregar estigma. Hoje, avaliamos o comportamento e o contexto. A PrEP pode ser indicada para você se:
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Você deixa de usar preservativo ocasionalmente ou frequentemente;
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Você tem parceiros sexuais cujo status sorológico você desconhece;
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Você está em um relacionamento sorodiscordante (onde uma pessoa vive com HIV e a outra não);
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Você utiliza profilaxia pós-exposição (PEP) com certa frequência;
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Você simplesmente deseja uma camada extra de segurança para reduzir a ansiedade durante o sexo.
Como médico infectologista, reforço que a prevenção não deve ser baseada em medo ou julgamento moral, mas em empoderamento. Se a sua vida sexual é ativa e você quer mais tranquilidade, a PrEP é uma ferramenta válida a ser considerada.
Mitos e Verdades sobre Segurança e Efeitos Colaterais
Uma das maiores barreiras para quem considera a PrEP é o medo de efeitos adversos. Vamos esclarecer o que diz a ciência e a minha prática clínica:
1. Efeitos Imediatos (Adaptação)
No início do tratamento, uma pequena parcela dos pacientes pode sentir efeitos leves, como náusea, dor de cabeça ou desconforto abdominal. Esses sintomas costumam ser transitórios e desaparecem nas primeiras semanas (“fase de adaptação”).
2. Segurança a Longo Prazo (Rins e Fígado)
É verdade que os medicamentos são metabolizados pelo fígado e rins. Por isso, a PrEP não é vendida em farmácia sem receita. A segurança do método reside justamente no monitoramento. Antes de prescrever, e durante todo o acompanhamento, realizamos exames de creatinina e função hepática. Em pacientes saudáveis, o impacto é mínimo e totalmente reversível. Se houver qualquer alteração nos exames, nós ajustamos a conduta antes que se torne um problema.
3. “Quem toma PrEP para de usar camisinha?”
A PrEP protege exclusivamente contra o HIV. Ela não evita Sífilis, Gonorreia, Clamídia, Hepatites ou HPV. Por isso, trabalhamos com a ideia de Prevenção Combinada. O uso da PrEP não exclui o preservativo, mas, se o preservativo falhar ou for esquecido, você continua protegido contra o vírus mais complexo, que é o HIV. Para as outras ISTs, o diagnóstico precoce nos exames de rotina garante tratamentos rápidos e eficazes (muitos deles curativos).
A importância da “Slow Medicine” na escolha
Decidir começar uma profilaxia contínua é uma escolha pessoal que envolve estilo de vida, planos futuros e saúde geral. Não é uma decisão para ser tomada em uma consulta de 15 minutos.
Minha formação, que passa pelo Hospital das Clínicas da USP e Harvard Medical School, me ensinou que a tecnologia médica só funciona bem quando aplicada ao contexto individual do paciente.
No meu consultório, reservo no mínimo uma hora para a consulta inicial. Precisamos entender não só a sua saúde física, mas como a medicação se encaixará na sua rotina. Avaliamos suas vacinas, sua saúde intestinal (muitas vezes esquecida, mas vital para a imunidade) e criamos um plano de blindagem imunológica.
O próximo passo para sua tranquilidade
Se você sente que a PrEP pode se adequar ao seu momento de vida, mas ainda tem dúvidas específicas sobre interações medicamentosas ou sobre o protocolo, o ideal é conversar com um especialista.
A prevenção é a forma mais sofisticada de demonstrar amor próprio. Não baseie sua saúde em informações soltas da internet.
Agende uma conversa no meu consultório na Vila Madalena ou por telemedicina. Vamos avaliar juntos, com ciência e empatia, a melhor estratégia para sua proteção.