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Transplante de Microbiota Fecal: A Cura para Infecções em Idosos

Índice

Você, ou algum familiar idoso, já enfrentou aquele ciclo exaustivo e assustador de internações sucessivas, onde antibióticos potentes parecem tratar a crise inicial, mas deixam o corpo tão vulnerável que uma nova infecção surge poucas semanas depois? Na infectologia moderna, entendemos que o problema central nessas situações de repetição não é apenas o patógeno isolado, mas sim o colapso do ecossistema interno do paciente. É exatamente neste cenário desolador que o transplante de microbiota fecal tem se provado não apenas uma alternativa terapêutica, mas um verdadeiro divisor de águas na medicina de precisão, salvando vidas que antes estavam reféns de infecções refratárias.

A terceira idade traz consigo uma bagagem imensa de sabedoria, mas também um natural desgaste do sistema imunológico. Quando associamos isso ao uso frequente de antimicrobianos, o que vemos é uma devastação da flora intestinal, a nossa principal barreira de defesa. Como especialista dedicado à integração entre imunidade, microbiota e estilo de vida, testemunho diariamente o desespero de famílias que não sabem mais a quem recorrer após o quinto ou sexto ciclo de medicação falhar. O que a ciência nos mostra hoje é que a cura, muitas vezes, não reside em criar um antibiótico ainda mais agressivo, mas em devolver a vida e o equilíbrio ao organismo através de um microbioma saudável.

Ao longo da minha trajetória, consolidada no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e aprimorada em centros de excelência internacionais, aprendi que a escuta ativa e a investigação minuciosa são inegociáveis. O trato gastrointestinal não é apenas um tubo digestivo; é o grande quartel-general da nossa imunidade. Se você busca compreender a raiz do problema e deseja uma abordagem que une o rigor científico à máxima humanização, convido-o a mergulhar nas próximas linhas. Vamos explorar juntos como a ciência da modulação intestinal está reescrevendo o destino de pacientes idosos e por que a medicina baseada em evidências está cada vez mais focada naquilo que vive dentro de nós.

O que é e como funciona o transplante de microbiota fecal?

O conceito de utilizar fezes saudáveis para tratar doenças intestinais pode soar excessivamente inovador ou até mesmo inusitado para muitos, mas suas raízes históricas remetem à medicina oriental milenar. Contudo, foi nas últimas duas décadas, com o avanço estrondoso da biologia molecular e do sequenciamento genético, que esse procedimento ganhou status de terapia de altíssima eficácia e segurança clínica nas diretrizes mundiais de infectologia e gastroenterologia.

Em termos simples, o procedimento consiste em transferir uma comunidade complexa, viva e altamente diversificada de microrganismos de um doador rigorosamente saudável para o trato gastrointestinal de um paciente doente. O objetivo principal é a restauração da eubiose, ou seja, o equilíbrio ecológico do intestino. Quando um idoso recebe múltiplos ciclos de antibióticos, sua microbiota perde a diversidade. Espécies protetoras morrem, abrindo espaço físico e disponibilidade de nutrientes para que bactérias patogênicas, fungos e vírus se proliferem de forma descontrolada.

O processo de infusão pode ocorrer por diferentes vias, dependendo da condição clínica do paciente e da avaliação da equipe médica. As formas mais comuns incluem a colonoscopia, que permite a visualização direta da mucosa inflamada e a deposição do material em toda a extensão do cólon, e o uso de sondas nasoentéricas ou cápsulas liofilizadas, desenvolvidas com tecnologia de ponta para resistir à acidez do estômago e liberar a microbiota viva diretamente no intestino grosso.

Assim que essa nova população de trilhões de bactérias, fagos e metabólitos protetores se instala, ocorre um fenômeno chamado exclusão competitiva. As bactérias “boas” doadas passam a competir por alimento e espaço com os agentes infecciosos. Além disso, elas produzem substâncias antimicrobianas naturais, conhecidas como bacteriocinas, e começam a fermentar fibras para produzir ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato, que é o principal combustível para a cicatrização das células do intestino. Em questão de dias, a parede intestinal, antes inflamada e permeável, começa a se regenerar.

É fascinante observar a resposta clínica. Pacientes idosos que apresentavam dezenas de episódios de diarreia ao dia, desnutrição severa e quadros de delírio induzido por inflamação sistêmica, muitas vezes apresentam uma reversão drástica do quadro em menos de 48 horas. Não se trata de mágica, mas da mais pura biologia evolutiva aplicada: estamos devolvendo ao corpo a ferramenta fundamental que ele utilizou durante toda a vida para se proteger das ameaças do ambiente.

Por que idosos sofrem mais com infecções refratárias no intestino?

O envelhecimento é um processo belo, mas que impõe desafios fisiológicos inegáveis. Com o passar dos anos, o sistema imunológico sofre um declínio natural de suas funções, um fenômeno amplamente conhecido na literatura médica como imunossenescência. A capacidade de produzir novos linfócitos (células de defesa) virgens na medula óssea diminui, e as células de memória perdem parte de sua agilidade de resposta. Isso significa que, frente a um novo invasor, o corpo de um idoso demora mais para montar uma defesa coordenada.

Somado a isso, temos um segundo fator crítico: o envelhecimento do próprio microbioma intestinal. Estudos robustos em medicina preventiva e infectologia demonstram que, a partir da sétima década de vida, há uma queda vertiginosa na diversidade das espécies bacterianas que habitam nosso cólon. Espécies anti-inflamatórias clássicas, como as do gênero Bifidobacterium, tornam-se escassas, enquanto proteobactérias associadas a processos inflamatórios ganham terreno. Essa mudança de perfil cria um estado crônico de inflamação de baixo grau, conhecido como inflammaging.

Neste cenário delicado, o idoso frequentemente desenvolve comorbidades que exigem intervenções médicas. Uma simples ida ao pronto-socorro devido a uma suspeita de pneumonia ou uma infecção urinária resulta na prescrição de antibióticos de amplo espectro. Aqui, o terreno já fragilizado sofre um abalo sísmico. O medicamento não distingue a bactéria causadora da pneumonia das bactérias protetoras do intestino. O resultado é um “deserto ecológico” intestinal.

Com a barreira mucosa desguarnecida e a produção de muco protetor reduzida pela idade, patógenos oportunistas encontram o ambiente perfeito. A hospitalização frequente expõe esses idosos a cepas bacterianas hospitalares altamente resistentes. É por isso que, muitas vezes, a internação para tratar uma condição secundária acaba se transformando em uma longa batalha contra infecções nosocomiais graves. A vulnerabilidade do idoso não está apenas na idade avançada, mas na perda da sua biodiversidade interna protetora.

Como médico atuante e infectologista em São Paulo, observo que a chave para romper esse ciclo trágico é atuar antes que a devastação seja irreversível. Precisamos ter parcimônia extrema na indicação de antimicrobianos nessa faixa etária e, quando o uso for absolutamente necessário, é imperativo traçar um plano imediato de recuperação desse microbioma, visando não apenas curar o episódio atual, mas prevenir a próxima internação.

Qual a relação entre o uso de antibióticos e a bactéria Clostridioides difficile?

Para entender a magnitude do problema das infecções refratárias em idosos, é obrigatório falarmos do Clostridioides difficile (anteriormente conhecido como Clostridium difficile). Esta é, sem dúvida, a principal bactéria causadora de diarreia associada ao uso de antibióticos no mundo, e o maior pesadelo para pacientes idosos submetidos a longos períodos de internação.

O C. difficile é um microrganismo engenhoso. Ele possui a capacidade de formar esporos, que são como “sementes” blindadas, extremamente resistentes ao calor, à dessecação, ao ácido gástrico e até mesmo à maioria dos produtos de limpeza utilizados em ambientes hospitalares, incluindo o álcool em gel. Muitos de nós carregamos essa bactéria no intestino de forma assintomática, em quantidades minúsculas, mantidas sob rígido controle pela nossa microbiota saudável dominante.

O desastre tem início quando o paciente recebe antibióticos, especialmente classes como cefalosporinas, fluoroquinolonas ou clindamicina, muitas vezes indicadas de maneira equivocada sem um tratamento para infecção urinária de repetição bem estruturado. Esses medicamentos aniquilam a flora bacteriana protetora. Sem a concorrência por nutrientes e sem a presença dos ácidos biliares secundários produzidos pelas bactérias boas (que inibem a germinação do C. difficile), os esporos desse patógeno encontram o terreno livre para eclodir e se multiplicar vorazmente.

Uma vez ativo, o Clostridioides difficile começa a secretar duas toxinas letais para o tecido humano: a Toxina A e a Toxina B. Essas toxinas destroem a arquitetura celular do revestimento intestinal, causando morte celular, ulcerações graves e uma intensa resposta inflamatória, que clinicamente se traduz em diarreia profusa, febre, dor abdominal incapacitante e, nos casos mais severos, megacólon tóxico, uma condição que pode levar o paciente ao óbito em questão de horas se não houver intervenção cirúrgica de emergência.

O grande paradoxo do tratamento clássico para o C. difficile é que utilizamos antibióticos (como vancomicina oral ou fidaxomicina) para tentar matá-lo. Embora isso muitas vezes resolva o quadro agudo, esses antibióticos mantêm o intestino “desmatado”. Consequentemente, assim que a medicação é suspensa, os esporos do C. difficile que sobreviveram voltam a germinar, gerando as famosas infecções recorrentes. Estima-se que após um primeiro episódio, o risco de recorrência seja de 20 a 30%. Após o segundo, pula para mais de 60%. É exatamente neste cenário de repetição incessante, onde a medicina convencional esbarra em seus limites, que a modulação intestinal entra com eficácia superior a 90%, rompendo definitivamente o ciclo vicioso ao restaurar o exército de proteção do paciente.

Como a modulação intestinal e a microbiota recuperam a imunidade?

Existe um ditado crescente e fundamentado na ciência moderna que diz: “a sua imunidade começa no intestino”. Esta afirmação não é força de expressão poética, é pura anatomia e imunologia clínica. Aproximadamente 70 a 80% de todas as células imunológicas do corpo humano residem em uma estrutura chamada GALT (Tecido Linfoide Associado ao Intestino). Trata-se de uma vasta rede de vigilância estrategicamente posicionada logo abaixo da camada de células que reveste o trato digestivo.

A comunicação entre a nossa microbiota e essas células de defesa é constante e sofisticada. As bactérias comensais funcionam como grandes treinadoras do sistema imune. Elas “apresentam” fragmentos de suas próprias estruturas às células dendríticas humanas, ensinando nossos linfócitos T a diferenciar o que é uma ameaça real do que é tolerável. Sem esse treinamento promovido por uma microbiota rica, o sistema imune pode se tornar preguiçoso frente a infecções graves ou, inversamente, hiperativo, atacando os próprios tecidos do corpo, como vemos nas doenças autoimunes.

A modulação intestinal atua diretamente nesse eixo. Ao realizarmos intervenções que vão desde o ajuste minucioso do estilo de vida, prescrição dietética direcionada, uso de probióticos para imunidade com cepas cientificamente validadas, até procedimentos complexos como o transplante de fezes, estamos recalibrando esse diálogo entre micróbio e hospedeiro. O objetivo é aumentar a produção de muco que isola as toxinas, e promover a síntese de peptídeos antimicrobianos endógenos, como as defensinas.

Além disso, ao reparar o que chamamos de Leaky Gut ou hiperpermeabilidade intestinal — condição comum em pacientes com histórico de SIBO (Supercrescimento Bacteriano do Intestino Delgado) e disbiose —, impedimos que fragmentos bacterianos (LPS) vazem para a corrente sanguínea. Esse vazamento é o grande responsável por manter o paciente em um estado crônico de alerta inflamatório, o que consome uma energia tremenda do organismo e deprime a resposta imune contra ameaças verdadeiras, como vírus respiratórios ou bactérias do trato urinário.

Portanto, quando propomos um tratamento de SIBO e disbiose aliado a um check-up infectológico e imunológico completo, a intenção primária não é apenas silenciar o sintoma gastrointestinal. É reconstruir a fortaleza imunológica sistêmica do paciente. Uma microbiota modulada otimiza a absorção de vitaminas essenciais (como a D e a B12), reduz a inflamação sistêmica e devolve ao idoso a capacidade de combater patógenos com sua própria vitalidade natural, sem a dependência eterna de medicamentos sintéticos.

Quando é indicado fazer o exame de microbioma intestinal 16S?

Para tratarmos qualquer condição complexa, primeiro precisamos de um mapa preciso do território onde estamos pisando. Até pouco tempo atrás, investigar o intestino se limitava a exames de fezes antigos, que buscavam apenas parasitas ou bactérias causadoras de diarreia aguda através de culturas rudimentares. Hoje, a medicina de precisão revolucionou essa abordagem através dos exames de metagenômica intestinal.

O exame de microbioma intestinal 16S é uma ferramenta baseada no sequenciamento genético. Ao invés de tentar cultivar as bactérias em placas de laboratório (onde mais de 80% das espécies intestinais simplesmente não crescem por serem anaeróbias estritas), nós extraímos o DNA presente na amostra de fezes e lemos o gene 16S rRNA. Esse gene funciona como um “código de barras” exclusivo para cada família de bactéria. Através dessa leitura computadorizada de bilhões de dados, conseguimos saber exatamente quem está habitando o intestino do paciente e em qual proporção.

A indicação desse exame avançado ocorre quando enfrentamos quadros desafiadores, onde as intervenções empíricas falharam. É extremamente valioso na investigação de microbiota e imunidade baixa, para pacientes que sofrem com distúrbios inflamatórios intestinais, intolerâncias alimentares severas de origem não anatômica, fadiga crônica, e principalmente no mapeamento do dano causado por tratamentos antibióticos prolongados. Ele nos fornece o índice de diversidade microbiana (Alpha e Beta diversidade) e a relação entre filos críticos, como Firmicutes e Bacteroidetes.

Munidos dessas informações precisas, deixamos o campo da “tentativa e erro”. Podemos identificar, por exemplo, que o paciente idoso com infecções de repetição tem uma ausência quase total de bactérias produtoras de butirato (como a Faecalibacterium prausnitzii), e um excesso de Escherichia coli inflamatória. Com isso, o médico especialista em modulação intestinal desenha um plano cirúrgico de pré-bióticos, polifenóis, dieta específica e, se necessário, seleciona as melhores estratégias de reintrodução bacteriana de forma totalmente individualizada. É a infectologia aliada à tecnologia em sua mais bela forma.

Transplante de fezes é seguro para pacientes imunocomprometidos?

Uma dúvida angustiante e extremamente pertinente que costumo ouvir no consultório é: “Introduzir fezes de outra pessoa no intestino de um paciente idoso, ou que já tem a imunidade fragilizada, não pode causar uma infecção ainda pior?”. A resposta, embasada nas maiores diretrizes de infectologia do mundo, é que o procedimento apresenta um perfil de segurança notavelmente alto, desde que executado sob protocolos hospitalares e laboratoriais de rigor extremo.

A chave para a segurança absoluta do transplante de microbiota fecal reside na triagem do doador. O doador não é qualquer pessoa; ele passa por uma verdadeira sabatina clínica e laboratorial. Rejeitamos doadores que usaram antibióticos nos últimos meses, que possuem histórico familiar de doenças autoimunes, câncer de intestino, obesidade, síndrome metabólica ou transtornos psiquiátricos. Além disso, o sangue e as fezes do candidato são amplamente testados para uma lista exaustiva de patógenos, incluindo HIV, hepatites, sífilis, patógenos entéricos, parasitas, e as famosas bactérias multirresistentes (como KPC e VRE).

Para os pacientes imunocomprometidos — como aqueles em acompanhamento pós-transplante infectologia, indivíduos vivendo com doenças imunomediadas em uso de imunossupressores biológicos, ou idosos extremamente fragilizados —, a indicação é feita com cautela adicional. A literatura científica recente publicou centenas de relatos de sucesso e segurança nestes grupos populacionais vulneráveis, especialmente quando a indicação principal era uma infecção por C. difficile fulminante, cujo risco de morte pela doença natural superava dezenas de vezes qualquer risco teórico do procedimento.

É importante ressaltar que o transplante não exclui as práticas padrão de segurança e medicina preventiva, como a vacinação de populações especiais. Pelo contrário, as vacinas para pacientes imunossuprimidos continuam sendo o pilar de proteção primária. O que a modulação intestinal avançada propõe é um sinergismo terapêutico: o intestino saudável potencializará a resposta às vacinas administradas e reduzirá a vulnerabilidade sistêmica do paciente, criando um cinturão de segurança em torno desse organismo debilitado.

Como o médico infectologista atua no tratamento de disbiose grave?

Historicamente, a infectologia esteve atrelada à imagem do médico correndo pelos corredores do hospital com prescrições de potentes antibióticos para salvar pacientes em sepse. Embora esse cuidado intensivo continue sendo vital, a infectologia do século XXI transcende a medicina de guerra. Como médico infectologista, encaro meu papel não apenas como um combatente de microrganismos invasores, mas como o guardião da ecologia humana do meu paciente.

Eu, Dr. Daniel Prestes, como médico infectologista, adoto a filosofia do “orquestrador clínico”. Quando atendo um paciente com histórico de disbiose grave, com queixas arrastadas e infecções de repetição, sei que uma consulta rápida de quinze minutos focada em sintomas jamais resolverá o problema. Nossas consultas exigem profundidade de no mínimo uma hora. É preciso ouvir a história daquele intestino, os gatilhos emocionais, a rotina alimentar, a exposição ambiental e toda a linha do tempo do adoecimento.

Atuar nesse cenário exige integrar o conhecimento microbiológico profundo, validado por anos de prática hospitalar intensa em instituições de ponta, com a paciência da medicina preventiva. Muitas vezes, meu trabalho é articular o cuidado com a equipe de nutrição, orientar o fisioterapeuta sobre a energia do paciente e discutir com os colegas que prescrevem a imunossupressão. No meu consultório, prestando atendimento na Zona Oeste de SP, e também através da telemedicina com infectologista para pacientes de todo o Brasil, estruturamos um plano coeso.

Com experiência no tratamento de infecções sistêmicas, trago a mesma seriedade e evidência científica para tratar a disbiose. Seja conduzindo a investigação de uma segunda opinião infectologia casos complexos, aplicando um questionário minucioso para prevenção combinada ISTs em populações de risco, ou acompanhando a recuperação de um idoso pós-transplante de fezes, o princípio é um só: respeitar a biologia singular de quem está sentado à minha frente. Nenhum antibiótico substitui a compreensão profunda do indivíduo por trás da doença.

Quais outras condições se beneficiam do reequilíbrio do intestino?

Embora tenhamos focado nas infecções graves como o C. difficile, que ameaçam de forma contundente a vida do paciente geriátrico, a compreensão do eixo intestino-corpo revolucionou a maneira como abordamos diversas outras doenças crônicas e aflitivas que esgotam a qualidade de vida dos pacientes.

Tome-se como exemplo o tratamento para candidíase de repetição. Muitas mulheres e também pacientes idosos com fraldas sofrem repetidamente com fungos. A pergunta angustiante “candidíase de repetição tem cura?” frequentemente encontra resposta no intestino. A Candida albicans vive naturalmente no nosso trato gastrointestinal e vaginal. O uso excessivo de antimicrobianos elimina os lactobacilos protetores, permitindo que o fungo prolifere no intestino e migre recorrentemente para a mucosa urogenital. Tratar apenas o sintoma local com pomadas é como enxugar gelo. A resolução definitiva passa invariavelmente pela recuperação do microbioma base.

A mesma premissa se aplica à ligação entre infecção urinária de repetição e intestino. A imensa maioria das infecções do trato urinário é causada por bactérias enterobactérias, notadamente a E. coli, que habitam o intestino do próprio paciente. Uma disbiose grave aumenta a carga dessas bactérias patogênicas no períneo. O tratamento focado unicamente na bexiga falhará, exigindo um olhar ampliado que inclui modulação intestinal, imunização específica quando disponível, e estratégias profiláticas não antibióticas.

Além disso, áreas emergentes como a gestão de imunidade para performance esportiva, o manejo da fadiga crônica, e até mesmo projetos de prevenção educacionais e de consultoria sanitária para escolas se beneficiam dessa visão sistêmica. Ao educarmos a população sobre como a alimentação, o uso racional de remédios e a higiene adequada modulam nosso ecossistema interno, estabelecemos as bases para uma sociedade mais resiliente a pandemias e doenças crônicas. O tratamento de infecções recorrentes de mucosa é apenas a ponta do iceberg das possibilidades da imunologia clínica de precisão.

Por que confiar neste conteúdo?

A infectologia moderna exige rigor acadêmico absoluto e atualização constante, pilares fundamentais da minha prática clínica. O compromisso de tratar o paciente como um ecossistema complexo demanda evidências sólidas.

  • Este artigo foi redigido com base nas diretrizes clínicas globais da Infectious Diseases Society of America (IDSA) e da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) sobre o manejo de infecções refratárias e modulação de microbioma.
  • As informações terapêuticas refletem a literatura indexada nas principais plataformas de pesquisa médica do mundo, como PUBMED e JAMA, além de protocolos estabelecidos no Hospital das Clínicas da FMUSP.
  • Todo o conteúdo foi estruturado e revisado pelo Dr. Daniel Prestes (CRM-SP 133703 / RQE 43924), médico infectologista com residência pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Fellowship em Pesquisa Clínica pela Harvard Medical School, garantindo que você tenha acesso a informações que unem excelência hospitalar à mais refinada prática de consultório.

Conclusão

A jornada contra as infecções de repetição, especialmente na terceira idade, não precisa ser um ciclo interminável de angústia e devastação provocada por medicações excessivas. A ciência avançou a passos largos para comprovar que devolver a vida e a diversidade ao intestino através de terapias inovadoras como o transplante de microbiota fecal é muitas vezes a intervenção curativa que faltava. Ao focar na modulação intestinal e na construção de uma imunidade resiliente, estamos preservando não apenas a sobrevida, mas a dignidade e a qualidade de vida daqueles que amamos.

Como orquestrador clínico com ampla experiência nas maiores instituições médicas do país, incluindo o Hospital Sírio-Libanês e Einstein, meu compromisso é fornecer um cuidado técnico impecável associado a uma escuta verdadeiramente humana. Acredito que cada paciente carrega uma história imunológica única que precisa ser decifrada, e não apenas medicada às pressas.

Se você ou seu familiar encontram-se exaustos pelos retornos constantes ao hospital e buscam uma linha de cuidado voltada para a prevenção e a saúde integral, convido-o a agendar um check-up infectológico completo. Seja de forma presencial no meu consultório particular, ou através da telemedicina, estarei à disposição para estruturarmos juntos um plano coeso e definitivo para o seu reequilíbrio imunológico.

FAQ: Perguntas Frequentes

1. O transplante de microbiota fecal dói ou exige internação prolongada?

Na imensa maioria dos casos, o procedimento é extremamente bem tolerado. Se realizado via colonoscopia, o paciente é sedado e não sente dor, sendo um procedimento ambulatorial ou com internação muito breve. Quando realizado via cápsulas orais (liofilizadas), é tão simples quanto tomar uma medicação em casa, sob rigorosa supervisão e prescrição do especialista. O conforto e a segurança do paciente são sempre a prioridade médica.

2. Qual a taxa de sucesso do tratamento para a infecção refratária por Clostridioides difficile?

Os ensaios clínicos randomizados mais respeitados da literatura médica apontam taxas de cura excepcionalmente altas, variando entre 85% e mais de 90% após uma única ou dupla infusão. Este nível de eficácia é considerado revolucionário na medicina contemporânea, superando largamente o uso isolado de antibióticos para a doença recorrente.

3. É possível prevenir a disbiose severa em idosos que precisam de antibióticos?

Com toda certeza. A prevenção se dá através do uso racional e pelo menor tempo possível do antimicrobiano, além da introdução simultânea e estratégica de cepas específicas de probióticos, prescrição de dietas ricas em fibras polifermentáveis e acompanhamento infectológico especializado para monitorar os primeiros sinais de toxicidade intestinal antes que o quadro evolua para gravidade.

4. O sequenciamento genético 16S da microbiota deve ser feito como exame de rotina?

Não. Apesar de ser uma ferramenta maravilhosa de medicina de precisão, ele não é necessário para a rotina básica de indivíduos assintomáticos. O exame ganha valor inestimável na investigação de causas profundas em pacientes que já apresentam quadros de disbiose grave, infecções de repetição crônicas, e alterações autoimunes ou alérgicas de difícil controle clínico prévio.

5. A modulação intestinal pode ajudar também na imunidade de adultos jovens?

Sim. Embora o foco deste artigo seja a vulnerabilidade do idoso, a integridade do eixo intestino-sistema imune é vital em todas as fases da vida. Adultos jovens que sofrem com herpes de repetição, infecções respiratórias frequentes, fadiga inexplicável ou intolerâncias digestivas pós-uso de medicamentos também encontram no reequilíbrio da microbiota uma resposta sólida para a retomada de sua performance de saúde.

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Dr. Daniel Paffili Prestes​

Médico especialista em infectologia e referência em Infecções em pacientes imunocomprometidos.